porque o universo tá o tempo todo tentando destruir a ordem e porque nós somos uma de suas consequências pra disseminar o caos
porque o amor é ritual e mesmo assim não pode nunca ser o mesmo porque eu plantei uma semente no peito
porque tudo isso aconteceu agora enquanto sóis tentam se livrar da gravidade
eu te digo:não há violência maior do que a que me fiz durante todos esses anos ao tentar ser uma coisa que agrada o homem
e por eu saber disso agora, nada foi mais fácil
são tantos detalhes cômodos: quantas vezes eu preciso me perguntar “eu gosto disso?” pela primeira vez na vida sobre algo que eu já faço há décadas
desafiar-me é como trabalho a favor do universo e contra a ordempor isso dói tanto a paz às vezes, ela não é milimetricamente construída
ela é cruel e selvagem
como tudo que eles nos ensinaram a matar
O abismo serve para nos lembrar que há um limite tênue entre a coragem e a estupidez.
(Source: blogalaxyofbooks.blogspot.com.br)
da pele em flor sinto
a violência vermelha da narina
que à noitinha tece fio a fio
o itinerário de uma espera
de tanto atracar a boca à noite
não compartilho da tua crença
de cão cativo. em vez disso faço
prensa pro dia, o fiapo do novelo
incólume como um pé na porta
de modo que não me toque
o cisco ótico quando fina felpa
faço das pétalas navalhas
existe algo entre o que mata e o que faz alguém agradecer por estar vivo. uma linha tênue, uma mistura de marasmo e repulsa. algo que não faz o coração parar de bater mas retira o ar. um antagonismo sutil e quase mortal. e o problema é exatamente esse quase, que não nos permite morrer nem nos dá a minima oportunidade para desejar estarmos vivos. essa corda que nos mantem presos no meio do abismo. esse fiapo de vida que nos coloca de pé todas as manhãs mas faz com que os dias se passem sem que notemos. é o existir no automático, o empurrar a existência com a barriga, o desistir de forma sútil sem sequer ter tentado. é o estado em que se encontra grande parte - senão toda - da sociedade. a antipatia para com o ser e apatia para com o universo. essa hostilidade desmedida, constituída apenas de opiniões, somada a ignorância que nos governa que nos mantém atados a essa forma porca de existir que faz com que o tempo passe e nos leve sem que qualquer experiência possa ser deixada de exemplo para os futuros seres. na verdade, temos criado gerações piores que as nossas, agindo como se tal inércia fosse parte de nosso gene e transformando a pequena parcela de universo que nos cabe em um desperdício de matéria orgânica.
e o pior de tudo: pelo que observo, a tendência é piorar.